sábado, 11 de agosto de 2012

O primeiro espaço é o espaço do corpo

 
O corpo é o primeiro espaço.
Habita-se o corpo antes de qualquer outro lugar.
Se o caso é parar o corpo a fim de descanso, é necessário adentrá-lo.
Para dormir é preciso mergulhar no corpo, sentir o corpo afundar na superfície fora dele, para assim achar que sai do corpo.
O corpo não é território passível de desapropriação ou abandono, é lugar cativo.

Ana Rosa Amor

(grupo Corpo dança "O corpo", álbum de Arnaldo Antunes e Mônica Salmaso)

domingo, 13 de maio de 2012

Desejan...



O desejo aparece naquela hora em que a gente não quer acreditar que é ele mesmo que está aí. Ele vem depois de muita luta nossa contra ele. É quando a gente decide parar de vencê-lo. Dá tanto medo, mas a gente sabe que não tem jeito, é ele. E temos que ir. Temos que ir vê-lo. A gente se despede dos que ficam e vai. Parece que não há nada ainda. É porque temos que continuar indo para encontrá-lo. O desejo é então o que parece que vamos consegui pegar, que estamos quase conseguindo. É quando a gente sente vontade, desta vez, de fazer as malas e ir. Temos que ir. É quando percebemos que vamos ter que deixar tudo que temos pra trás e continuar indo. Aí, nos desfazemos da mala. É quando a gente vê que não teremos mais nada e teremos que prosseguir. É quando estamos prontos para dar um salto, mas damos um passo. Vemos que assim já há movimento. E de repente parece que estamos correndo. O desejo é o que temos que correr pra pegar. Vemos então que o movimento é o que nos permite uma passagem, de um lugar a outro. O desejo é a passagem! É o que faz o tempo passar. É essa vontade que dá de andar. É querer chegar. É se dar conta do tempo. É fazer passar. Entretanto, não há paz. É vertiginoso. É estar só. É o que nos concede ser só. E é movimento. Só precisamos ir. Só podemos ir. É verbo. Desejo é desejar. Desejar é agitar-se por dentro. É ter uma espécie de asinhas nos pés. É perturbador. Não é tão certeiro assim, pois nos fazemos enganar. Mas tem direção. O desejo aponta sempre pro norte! Desejar é não ter mais sentido, a não ser o norte. O sentido da razão ou do sul não serve mais. Desejar é poder abrir as mãos. É usar só os pés, com aquelas asinhas. É quando ninguém pode mais ajudar. É estar só, de novo. É ir e confiar apenas nisso: no caminho e nos pés. Ai, e não tem garantia. Nada é garantido. Desejar é perder, é deixar tudo. É apenas seguir, com as mãos abertas. É não segurar. O desejo é sustentado e sustenta a gente pelo próprio desejar. Desejar é sentir uma palpitação, é perceber que há vida. É ver que viver é não ficar parado. Não há paz. É seguir pro norte, pois não dá mais pra voltar. É quando a gente vê que não pode mais voltar, pois aquele lugar lá atrás não existe mais, foi demolido e soterrado. Só há o norte, e lá não haverá paz. Há apenas um lugar por vir. Ah, mas isso não é pouco! Onde já se viu tanta euforia e tanta força para chegar a algum lugar? É que esse lugar lá na frente é sempre agora, porém não mais aqui. Não tem outro jeito, só assim que haverá depois. É porque não podemos cercá-lo, nem colocar uma porteira. Tem que estar sempre aberto! Desejar é abrir. Lembra? As mãos abertas. Desejar é seguir num caminho aberto, mas não a deriva. É saber que é a gente que está ali e que a gente está indo, porque deseja! É andar sozinha, e saber disso.

Ana Rosa Amor
(13 de maio de 2012, um domingo)

Para não hospicializar, "A casa dos mortos":

Estamos na Semana da Luta Antimanicomial, a semana do Dezoito de Maio.

É hora de mais uma vez revermos nossos manicômios mentais e pensarmos na inserção da loucura na sociedade. Talvez não seja inserção, mas desvelamento, porque ela está aí, é do mundo. “Não é louco quem quer"! Já diria o saudoso Lacan. Loucura não é da ordem do querer, das vontades. É desrazão, não é de se explicar, nem de se entender. É acontecimento, acometimento. É humano.

Aqui está um filme da Débora Diniz - A Casa dos Mortos - feito num manicômio judiciário da Bahia. Ele evidência a loucura em sua radicalidade, mas trancafiada, se é que isso é possível. É possível trancafiar a loucura? Acho que não, uma vez que podemos ver o filme. Trancafiam-se os loucos, mas loucura não se esconde, ela se revela. É um filme muito digno, que contribuiu muito com o meu pensamento e o meu trabalho.

Ana Rosa Amor


(O filme, com menos de meia hora de duração, está completo no youtube)