O desejo aparece naquela hora em que a gente não quer acreditar que é ele mesmo que está aí. Ele vem depois de muita luta nossa contra ele. É quando a gente decide parar de vencê-lo. Dá tanto medo, mas a gente sabe que não tem jeito, é ele. E temos que ir. Temos que ir vê-lo. A gente se despede dos que ficam e vai. Parece que não há nada ainda. É porque temos que continuar indo para encontrá-lo. O desejo é então o que parece que vamos consegui pegar, que estamos quase conseguindo. É quando a gente sente vontade, desta vez, de fazer as malas e ir. Temos que ir. É quando percebemos que vamos ter que deixar tudo que temos pra trás e continuar indo. Aí, nos desfazemos da mala. É quando a gente vê que não teremos mais nada e teremos que prosseguir. É quando estamos prontos para dar um salto, mas damos um passo. Vemos que assim já há movimento. E de repente parece que estamos correndo. O desejo é o que temos que correr pra pegar. Vemos então que o movimento é o que nos permite uma passagem, de um lugar a outro. O desejo é a passagem! É o que faz o tempo passar. É essa vontade que dá de andar. É querer chegar. É se dar conta do tempo. É fazer passar. Entretanto, não há paz. É vertiginoso. É estar só. É o que nos concede ser só. E é movimento. Só precisamos ir. Só podemos ir. É verbo. Desejo é desejar. Desejar é agitar-se por dentro. É ter uma espécie de asinhas nos pés. É perturbador. Não é tão certeiro assim, pois nos fazemos enganar. Mas tem direção. O desejo aponta sempre pro norte! Desejar é não ter mais sentido, a não ser o norte. O sentido da razão ou do sul não serve mais. Desejar é poder abrir as mãos. É usar só os pés, com aquelas asinhas. É quando ninguém pode mais ajudar. É estar só, de novo. É ir e confiar apenas nisso: no caminho e nos pés. Ai, e não tem garantia. Nada é garantido. Desejar é perder, é deixar tudo. É apenas seguir, com as mãos abertas. É não segurar. O desejo é sustentado e sustenta a gente pelo próprio desejar. Desejar é sentir uma palpitação, é perceber que há vida. É ver que viver é não ficar parado. Não há paz. É seguir pro norte, pois não dá mais pra voltar. É quando a gente vê que não pode mais voltar, pois aquele lugar lá atrás não existe mais, foi demolido e soterrado. Só há o norte, e lá não haverá paz. Há apenas um lugar por vir. Ah, mas isso não é pouco! Onde já se viu tanta euforia e tanta força para chegar a algum lugar? É que esse lugar lá na frente é sempre agora, porém não mais aqui. Não tem outro jeito, só assim que haverá depois. É porque não podemos cercá-lo, nem colocar uma porteira. Tem que estar sempre aberto! Desejar é abrir. Lembra? As mãos abertas. Desejar é seguir num caminho aberto, mas não a deriva. É saber que é a gente que está ali e que a gente está indo, porque deseja! É andar sozinha, e saber disso.
Ana Rosa Amor
(13 de maio de 2012, um domingo)